1. Apresentação do tema

A função 50/51 é a proteção de sobrecorrente mais comum em sistemas elétricos industriais, de concessionárias e até em alguns sistemas prediais.
Ela é responsável por detectar correntes anormais (sobrecargas e curtos‑circuitos) e mandar abrir o disjuntor antes que o equipamento seja danificado.

Se você trabalha com:

  • alimentadores de média ou baixa tensão,
  • transformadores,
  • motores de grande porte,
  • barras de painéis,
  • linhas e cabos,

é praticamente certo que encontrará um relé com função 50/51 protegendo esse circuito.

A boa notícia: o conceito é simples. Com uma explicação bem estruturada, alguém com pouco ou médio conhecimento consegue entender o suficiente para ler ajustes, interpretar relatórios e compreender o que está sendo protegido.


2. Conceito básico de sobrecorrente

Antes de falar da função 50/51, vale reforçar alguns conceitos:

  • Corrente nominal (In):
    Corrente que o circuito foi projetado para conduzir continuamente, sem danos.
  • Sobrecorrente:
    Qualquer corrente acima da nominal. Pode ocorrer como:

2.1 Sobrecarga

Corrente acima de In, mas não tão alta (por exemplo, 1,2 × In, 1,5 × In).
Se durar muito tempo:

  • aquece cabos, condutores, transformadores e motores,
  • acelera o envelhecimento da isolação,
  • reduz a vida útil dos equipamentos.

2.2 Curto‑circuito

Corrente muito alta (várias vezes a nominal – 5, 10, 20 × In ou mais).
Surge em situações como:

  • falha de isolamento entre fases,
  • fase encostando na carcaça
  • defeito interno em transformadores, motores, cabos.

Se não for interrompido rapidamente, o curto‑circuito provoca:

  • grandes esforços mecânicos,
  • aquecimento extremo,
  • danos severos aos equipamentos.

A função 50/51 existe justamente para detectar essas sobrecorrentes e desligar o circuito em um tempo compatível com o nível de corrente.


3. O que são as funções 50 e 51?

Pelo código ANSI/IEC:

  • Função 50 – Sobrecorrente instantânea
    Atua sem retardo intencional de tempo.
    É usada para curtos‑circuitos severos, onde cada milissegundo conta.
  • Função 51 – Sobrecorrente temporizada
    Atua com retardo de tempo ajustável, normalmente seguindo curvas de tempo inverso.
    É usada para sobrecargas e curtos menos intensos, onde é importante manter coordenação e seletividade entre os diversos níveis de proteção.

Na prática, os relés digitais organizam essa filosofia de proteção em três patamares de corrente:

  • I> – Sobrecorrente temporizada com curva inversa (associada à 51)
  • I>> – Sobrecorrente temporizada de tempo definido (também dentro da 51, mas sem curva inversa)
  • I>>> – Sobrecorrente instantânea (associada diretamente à 50)

É essa convenção que aparece com frequência em relés modernos e diagramas de proteção.


4. Como o relé de sobrecorrente “enxerga” o sistema

O relé não sabe se está protegendo um motor, um transformador ou um alimentador.
Ele enxerga apenas corrente.

De forma simplificada, o relé faz o seguinte o tempo todo:

4.1 Medição da corrente

  • A corrente que circula pelo circuito passa pelos TCs (transformadores de corrente).
  • O relé recebe essa corrente em valores secundários (1 A ou 5 A) e a converte para o valor primário correspondente (por exemplo, 5 A = 400 A, se o TC for 400/5).

4.2 Comparação com I>, I>> e I>>>

O relé compara a corrente medida com três patamares:

  • I> – primeiro nível de sobrecorrente (curva inversa)
  • I>> – segundo nível (tempo definido)
  • I>>> – nível de corrente muito alta (instantânea)

4.3 Cálculo do tempo de atuação

  • Se a corrente ultrapassa I>, o relé entra na lógica de sobrecorrente temporizada com curva inversa.
  • Se ultrapassa I>>, entra na lógica de tempo fixo.
  • Se ultrapassa I>>>, atua praticamente de forma instantânea.

Em termos práticos:

  • Currents pouco acima da carga normal → tratadas por I> (mais lento, com seletividade).
  • Correntes bem mais altas → tratadas por I>> (tempo fixo, mais rápido).
  • Correntes extremamente altas (curto franco) → tratadas por I>>> (instantâneo).

5. Nível I> – Sobrecorrente temporizada com curva inversa

5.1 O que é o patamar I>

I> é o primeiro nível de sobrecorrente do relé.
Ele é usado para:

  • sobrecargas prolongadas,
  • curtos de menor intensidade,
  • situações onde ainda é possível aguardar para verificar se proteções à jusante atuam primeiro.

A característica principal é a curva inversa de tempo:

  • quanto maior a corrente acima do I>, menor o tempo de atuação,
  • quanto mais próxima de I>, maior o tempo.

Isso permite que o relé se adapte ao nível de severidade da sobrecorrente.

5.2 Ajustes típicos de I>

  • Pickup (I>):
    Definido acima da corrente máxima de carga esperada.
    Exemplo: se a carga máxima é 80 A, pode-se ajustar I> em 100 A (1,25 × In), garantindo que o relé não atue em condições normais.
  • Curva de tempo:
    Pode ser Inversa, Muito Inversa, Extremamente Inversa, etc., conforme a filosofia de proteção.
  • TMS / Dial de Tempo:
    Ajuste que desloca a curva para cima ou para baixo, tornando a atuação mais rápida ou mais lenta.

5.3 Interpretação em operação

Se a corrente sobe para valores acima de I> (por exemplo, 120 A, 150 A, 200 A):

  • o relé detecta a sobrecorrente,
  • inicia a contagem de tempo conforme a curva,
  • se a corrente retornar ao normal antes de completar o tempo calculado, não atua;
  • se a corrente se mantiver alta, comanda a abertura do disjuntor.

Esse nível é crucial para proteger cabos e equipamentos contra sobreaquecimento devido a sobrecargas.


6. Nível I>> – Sobrecorrente de tempo definido

6.1 O que é o patamar I>>

I>> é um segundo patamar de sobrecorrente, com valor de corrente mais alto que I>.
Ele também é temporizado, mas com tempo fixo, sem curva inversa.

É utilizado para:

  • atuar mais rápido em faltas mais severas,
  • servir como backup em caso de falha das proteções a jusante,
  • criar um degrau intermediário entre I> e I>>> na filosofia de proteção.

6.2 Ajustes típicos de I>>

  • Pickup (I>>):
    Ajustado algumas vezes acima da corrente nominal (por exemplo, entre 4 e 8 × In, dependendo do sistema e dos estudos de curto).
  • Tempo:
    Um valor definido, como 0,2 s, 0,3 s, 0,5 s etc.

6.3 Interpretação em operação

Quando a corrente ultrapassa I>>:

  • o relé passa a seguir um tempo fixo de atuação para esse patamar,
  • ao final desse tempo, se a corrente ainda estiver acima do ajuste, o relé tripará o disjuntor.

Dessa forma, I>> atua mais rápido que I>, mas ainda com um pequeno atraso intencional para coordenação.


7. Nível I>>> – Sobrecorrente instantânea (função 50)

7.1 O que é o patamar I>>>

I>>> é o nível de sobrecorrente instantânea, associado à função 50.

Quando a corrente atinge esse valor:

  • o relé interpreta como um curto‑circuito franco,
  • atua praticamente de imediato, sem retardo intencional.

7.2 Ajustes típicos de I>>>

  • Pickup (I>>>):
    Ajustado em valores altos, muitas vezes entre 8, 10, 12 × In ou mais.
    O valor exato depende do nível de curto disponível e das correntes transitórias de partida/inrush.
  • Tempo:
    0 s intencional (apenas o tempo interno de processamento e acionamento).

7.3 Interpretação em operação

Quando ocorre uma falta grave:

  • a corrente sobe rapidamente para valores muito elevados,
  • ao ultrapassar I>>>, o relé envia o comando de trip em milissegundos,
  • isso reduz drasticamente a energia do arco elétrico e os danos térmicos e mecânicos.

8. Como alguém com conhecimento básico pode começar a aplicar esses conceitos

Mesmo sem realizar estudos completos de coordenação, um profissional com pouco ou médio conhecimento já consegue:

  1. Ler os ajustes do relé e entender o papel de cada patamar:
    • I> → sobrecarga e curtos menores, com curva inversa.
    • I>> → faltas mais fortes, com tempo fixo.
    • I>>> → curtos severos, com atuação instantânea.
  2. Verificar se I> está acima da máxima corrente de carga, evitando atuações indevidas em regime normal.
  3. Checar se I>>> não está tão baixo a ponto de atuar em partidas de motor ou inrush de transformadores.
  4. Entender a seletividade básica, analisando:
    • quais relés devem atuar primeiro em caso de falha,
    • quais ficam como backup,
    • como os tempos de I> e I>> se relacionam entre jusante e montante.

Isso já traz um salto de entendimento em relação a simplesmente “copiar ajustes do projeto”.


9. Aplicações típicas da função 50/51

9.1 Alimentadores de média tensão

  • I>: ajustado logo acima da corrente máxima de carga, para proteção contra sobrecarga.
  • I>>: ajustado como patamar mais rápido para faltas mais intensas.
  • I>>>: para curtos francos próximo à barra ou ao disjuntor, com atuação instantânea.

9.2 Transformadores

  • I>: considera a corrente nominal do transformador e eventuais sobrecargas admissíveis.
  • I>> e I>>>: definidos levando em conta a corrente de inrush, para evitar disparos indevidos na energização.

9.3 Motores

  • I>: ajustado acima da corrente em regime permanente, respeitando a corrente e o tempo de partida.
  • I>>: protege contra curtos no circuito do motor.
  • I>>>: atua em curtos severos na alimentação ou no próprio motor.

10. Conclusão

A função 50/51 com I>, I>> e I>>> é o alicerce da proteção de sobrecorrente em sistemas elétricos.

  • I> cuida das sobrecargas e faltas de menor intensidade, com curva inversa e foco em seletividade.
  • I>> atua como degrau intermediário, com tempo definido, atendendo faltas mais severas com resposta mais rápida.
  • I>>> é a linha de defesa instantânea, para curtos‑circuitos francos.

Compreendendo esses três níveis e a forma como o relé toma decisão em função da corrente, o profissional ganha uma base sólida para:

  • interpretar ajustes existentes,
  • participar de análises de proteção,
  • enxergar o sistema de forma mais segura e consciente.