Última atualização: Fevereiro de 2026


Por Que a Função 27 é Essencial na Sua Instalação?

Você já presenciou motores queimando sem motivo aparente? Equipamentos eletrônicos apresentando falhas intermitentes? Processos industriais parando sem explicação clara?

Muitas vezes, o vilão silencioso por trás desses problemas é a operação prolongada com tensão abaixo do normal.

É exatamente para detectar e proteger contra essas situações que existe a função 27 – proteção de subtensão (undervoltage). Ela monitora continuamente os níveis de tensão do sistema e atua quando detecta condições anormais que podem comprometer equipamentos e processos.

Neste guia completo, você vai entender como funciona a proteção de subtensão, onde aplicá-la corretamente e quais são os erros mais comuns que podem comprometer a segurança da sua instalação.


O Que é a Função 27?

função ANSI/IEEE 27 é o elemento de proteção responsável por detectar condições de subtensão em sistemas elétricos.

De forma objetiva:

A função 27 compara continuamente a tensão medida no sistema com um valor de referência pré-ajustado. Quando a tensão cai abaixo desse valor e permanece nessa condição por um tempo determinado, o relé atua conforme a lógica programada.

Diferente de outras proteções que monitoram corrente ou frequência, a função 27 tem um único foco: garantir que a tensão do sistema permaneça dentro de limites seguros para operação dos equipamentos.


Como Funciona a Proteção de Subtensão

Princípio de Operação

O funcionamento da função 27 pode ser dividido em três etapas principais:

1. Medição da Tensão

  • A tensão é medida através de transformadores de potencial (TPs ou VTs)
  • O relé processa o sinal e calcula a tensão RMS (eficaz)
  • Normalmente utiliza-se filtro de componente fundamental (50/60 Hz) para eliminar influência de harmônicas

2. Comparação com Valor de Referência

  • O valor medido (Umed) é comparado com o valor de ajuste (Uset)
  • Condição de subtensão é detectada quando: Umed < Uset

3. Temporização e Atuação

  • Para evitar atuações por afundamentos momentâneos, aplica-se um tempo de retardo (Tset)
  • Se a condição persistir por tempo superior ao ajustado, o relé emite sinal de saída (alarme, trip, comando lógico)

Tipos de Medição

A função 27 pode ser configurada para monitorar diferentes referências de tensão:

  • Tensão fase-fase (VLL): mais comum em sistemas de média e alta tensão
  • Tensão fase-neutro (VLN): típica em baixa tensão ou cargas monofásicas
  • Monitoramento individual por fase: permite detectar desequilíbrios
  • Média trifásica: considera o valor médio das três fases

Onde Aplicar a Função 27

1. Proteção de Motores Elétricos

Problema: Motores operando com tensão reduzida apresentam:

  • Aumento de corrente para manter o torque
  • Aquecimento excessivo dos enrolamentos
  • Perda de capacidade de partida
  • Redução drástica da vida útil

Solução com função 27:

  • Detecta condições de subtensão prolongada
  • Pode gerar alarme em quedas moderadas
  • Comanda desligamento em quedas severas ou duradouras
  • Protege o investimento e evita paradas não programadas

Ajuste típico: 80-85% da tensão nominal


2. Proteção de Barramentos e Alimentadores

Aplicação: Monitoramento de barras principais em subestações industriais e comerciais.

Funções:

  • Detectar perda parcial ou total de alimentação
  • Disparar esquemas de load shedding (alívio de carga)
  • Preservar cargas prioritárias em situações de emergência
  • Evitar colapso total do sistema

Filosofia comum:

  • Primeiro patamar: alarme para operador
  • Segundo patamar: desligamento de cargas não essenciais
  • Terceiro patamar (se existir): proteção de última instância

Ajuste típico: 85-90% da tensão nominal


3. Sistemas de Geração

Aplicação em grupos geradores:

  • Monitorar tensão de saída do gerador
  • Impedir alimentação de cargas com tensão inadequada
  • Bloquear paralelismo em condições fora de especificação
  • Proteger o próprio gerador contra operação anormal

Aplicação em usinas:

  • Supervisão de tensão de barras de geração
  • Intertravamento com sistemas de sincronismo
  • Proteção contra perda de excitação (em conjunto com outras funções)

Ajuste típico: 85-95% da tensão nominal, dependendo do tipo de geração


4. Transferência Automática de Fontes (ATS/ATSE)

Cenário típico:

  • Instalação com duas fontes de alimentação (rede + gerador, ou duas redes)
  • Necessidade de transferência automática em caso de falha

Papel da função 27:

  • Monitora continuamente a tensão da fonte preferencial
  • Detecta quando a tensão cai abaixo do limite aceitável
  • Após temporização adequada, comanda a transferência para fonte alternativa
  • Evita transferências desnecessárias por afundamentos momentâneos

Ponto crítico: O tempo de atuação deve ser calibrado para:

  • Não transferir por sags de curta duração
  • Não manter cargas em fonte com tensão muito baixa por tempo excessivo

Ajustes da Função 27: Teoria e Prática

Valor de Pickup (Uset)

O que é: Nível de tensão abaixo do qual o relé considera haver subtensão.

Como ajustar:

  • Expresso em percentual da tensão nominal (Un)
  • Faixa típica: 70% a 95% de Un

Critérios de escolha:

AplicaçãoAjuste TípicoJustificativa
Motores industriais80-85% UnEvita aquecimento excessivo e perda de torque
Barras MT/AT85-90% UnRespeita limites normativos e operacionais
Cargas eletrônicas sensíveis90-95% UnMaior sensibilidade para equipamentos críticos
Geração85-95% UnDepende do tipo de gerador e requisitos de qualidade

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⚠️ Atenção:

  • Ajuste muito alto (>95%): atuações desnecessárias por variações normais
  • Ajuste muito baixo (<75%): equipamentos sofrem antes da proteção atuar

Tempo de Retardo (Tset)

O que é: Tempo mínimo que a condição de subtensão deve persistir para que o relé atue.

Por que é necessário:

  • Afundamentos momentâneos (sags) são normais em qualquer sistema
  • Manobras, partidas de motores, chaveamentos causam quedas transitórias
  • Atuação instantânea causaria desligamentos desnecessários

Ajustes típicos:

FinalidadeTempo TípicoObservação
Alarme0,1 – 1 sNotifica operador rapidamente
Trip de cargas não prioritárias1 – 3 sPermite recuperação de sags transitórios
Trip de cargas críticas3 – 10 sMaior tolerância a distúrbios
Bloqueio de religamento5 – 15 sGarante estabilização antes de religamento

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Exemplo Prático de Ajuste

Cenário: Barra de média tensão de 13,8 kV alimentando processo industrial com motores críticos.

Filosofia de proteção em dois patamares:

Patamar 1 – Alarme

  • Pickup: 90% de 13,8 kV = 12,42 kV
  • Tempo: 1 segundo
  • Ação: Alarme visual e sonoro no supervisório + registro de evento
  • Objetivo: Alertar operador sobre condição anormal sem interromper processo

Patamar 2 – Shedding de Carga

  • Pickup: 85% de 13,8 kV = 11,73 kV
  • Tempo: 2 segundos
  • Ação: Desligamento automático de cargas não essenciais (iluminação externa, ar-condicionado, compressores reserva)
  • Objetivo: Preservar alimentação de cargas críticas e evitar colapso total

Resultado esperado:

  • Quedas momentâneas (<1s): nenhuma ação
  • Quedas moderadas (1-2s): apenas alarme
  • Quedas severas (>2s): alívio de carga para proteger sistema

Erros Comuns na Aplicação da Função 27

❌ Erro 1: Tempo de Atuação Muito Curto

Problema:

  • Sistema atua para qualquer afundamento momentâneo
  • Desligamentos desnecessários causam:
    • Paradas de produção
    • Perda de confiança do operador na proteção
    • Desgaste de equipamentos por manobras excessivas

Solução:

  • Ajustar tempo compatível com características do sistema
  • Considerar tempos típicos de sags da concessionária
  • Implementar patamares (alarme rápido + trip retardado)

❌ Erro 2: Não Bloquear Durante Partida de Grandes Motores

Problema:

  • Partida de motor grande causa queda natural de tensão
  • Função 27 interpreta como falha e atua
  • Pode desligar o próprio motor em partida ou outras cargas

Solução:

  • Implementar lógica de bloqueio temporário da 27 durante partida
  • Usar sinal de “motor em partida” para inibir proteção
  • Após tempo de partida + margem, reabilitar função 27

❌ Erro 3: Ajuste de Pickup Muito Próximo de 100%

Problema:

  • Variações normais de tensão da rede (±5% a ±10%) acionam a proteção
  • Sistema fica “nervoso”, gerando alarmes constantes
  • Operador passa a ignorar sinalizações (efeito “alarme falso”)

Solução:

  • Considerar faixa normal de variação da tensão de suprimento
  • Ajustar pickup com margem adequada (tipicamente 85-90%)
  • Verificar histórico de tensão do ponto de conexão

❌ Erro 4: Ignorar Cargas Sensíveis

Problema:

  • Ajuste feito pensando apenas em motores e transformadores
  • Cargas eletrônicas (CLPs, drives, computadores) têm requisitos mais rigorosos
  • Equipamentos podem falhar antes da proteção atuar

Solução:

  • Mapear todas as cargas e suas sensibilidades
  • Considerar implementar proteção em múltiplos níveis:
    • 27 geral da barra (mais tolerante)
    • 27 específica para painéis críticos (mais sensível)

❌ Erro 5: Não Considerar Falhas de Medição

Problema:

  • Fusível de TP queimado simula condição de subtensão
  • Relé atua indevidamente, desligando sistema saudável

Solução:

  • Implementar supervisão de TP (função 60 ou lógica equivalente)
  • Usar lógica de votação (2 de 3 fases, por exemplo)
  • Configurar alarme específico para falha de medição

Coordenação com Outras Proteções

Embora a função 27 opere de forma independente, é importante considerar sua interação com outros elementos do sistema de proteção:

Com Proteção de Sobrecorrente (50/51)

  • Em situações de falta, há queda de tensão e elevação de corrente
  • A proteção de sobrecorrente normalmente atua primeiro
  • A função 27 atua como backup para faltas distantes ou condições de regime anormal

Com Esquemas de Religamento (79)

  • Após atuação de proteção, sistema pode tentar religamento
  • Função 27 pode bloquear religamento se tensão não estiver adequada
  • Evita religamento em barra sem tensão ou com tensão muito baixa

Com Proteção de Frequência (81)

  • Subtensão e subfrequência frequentemente ocorrem juntas em ilhamentos
  • Coordenação adequada evita atuações múltiplas desnecessárias
  • Pode-se usar lógica “OU” para atuação mais rápida

Com Função de Bloqueio (86)

  • Atuação da 27 pode disparar bloqueio geral
  • Impede religamento ou energização até investigação
  • Típico em proteção de geradores e transformadores críticos

Recursos Avançados em Relés Digitais

Relés numéricos modernos oferecem funcionalidades expandidas para a função 27:

Múltiplos Patamares

  • Até 4 ou 6 níveis de subtensão independentes
  • Cada um com pickup e tempo próprios
  • Permite filosofia de proteção em camadas

Medição por Sequência

  • 27P: subtensão de sequência positiva
  • 27N: subtensão de sequência negativa (menos comum)
  • Permite detecção mais seletiva de condições anormais

Curvas Temporizadas

  • Tempo inverso (quanto menor a tensão, menor o tempo)
  • Tempo definido (tradicional)
  • Combinação de ambos

Lógica Programável

  • Bloqueios condicionais
  • Habilitação por estado de equipamentos
  • Integração com esquemas complexos de automação

Checklist de Implementação

Ao implementar a função 27 em sua instalação, verifique:

☑ Definição de Filosofia

  • [ ] Objetivo da proteção está claro (alarme, trip, shedding, transferência)
  • [ ] Criticidade das cargas foi mapeada
  • [ ] Patamares de atuação foram definidos

☑ Ajustes

  • [ ] Pickup compatível com equipamentos e normas
  • [ ] Tempo adequado para evitar atuações desnecessárias
  • [ ] Margem de segurança considerada

☑ Coordenação

  • [ ] Interação com outras proteções foi analisada
  • [ ] Bloqueios necessários foram implementados
  • [ ] Lógica de religamento foi considerada

☑ Medição

  • [ ] TPs adequados e calibrados
  • [ ] Supervisão de TP implementada
  • [ ] Tipo de medição (VLL ou VLN) está correto

☑ Testes

  • [ ] Teste de injeção primária ou secundária realizado
  • [ ] Tempos de atuação verificados
  • [ ] Sinalizações e comandos testados

☑ Documentação

  • [ ] Ajustes documentados em memória de cálculo
  • [ ] Diagramas lógicos atualizados
  • [ ] Procedimentos operacionais criados

Conclusão

função 27 (subtensão) é um elemento fundamental de proteção em sistemas elétricos modernos, atuando como guardião contra condições de baixa tensão que podem:

  • Danificar equipamentos caros
  • Causar paradas não programadas
  • Reduzir vida útil de motores e transformadores
  • Comprometer a qualidade do processo industrial

Pontos-chave para levar:

  1. Ajuste adequado é crítico: nem muito sensível (alarmes falsos), nem muito tolerante (equipamentos em risco)
  2. Temporização é essencial: afundamentos momentâneos são normais; a proteção deve focar em condições prolongadas
  3. Contexto importa: o mesmo ajuste não serve para motor, barra, gerador e ATS
  4. Coordenação é necessária: a função 27 não trabalha sozinha; deve integrar-se ao sistema de proteção como um todo
  5. Manutenção e testes: proteção só funciona se estiver operacional; testes periódicos são obrigatórios

Implementada corretamente, a função 27 proporciona segurança, confiabilidade e economia, protegendo seu patrimônio e garantindo continuidade operacional.


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