1. O que é a Função 59?
A função 59 é a proteção de sobretensão definida pela norma ANSI/IEEE.
Ela atua quando a tensão medida ultrapassa um valor de ajuste (pickup) por um tempo superior ao retardo configurado no relé.
Em termos simples:
Se a tensão ficar acima do nível permitido por tempo suficiente, a função 59 dispara (trip) para desconectar o equipamento ou sinalizar uma condição anormal.
2. Por que a proteção de sobretensão é necessária?
Sobretensões podem parecer, à primeira vista, “menos perigosas” que sobrecorrentes, mas na prática elas:
- Aceleram o envelhecimento de isolamentos (motores, transformadores, cabos, capacitores);
- Podem causar falhas dielétricas em enrolamentos e barramentos;
- Aumentam perdas por histerese e correntes parasitas em máquinas rotativas;
- Podem provocar disparos de outros equipamentos (eletrônicos de potência, CLPs, inversores, bancos de capacitores).
Assim como a função 27 (subtensão) ajuda a evitar que baixas tensões danifiquem motores e outros equipamentos sensíveis,
eletrotech – Site técnico de engenharia elétrica focado em proteção, automação e sistemas de potência, com artigos práticos sobre funções ANSI, ajustes de relés e aplicações em subestações e instalações industriais. a função 59 cumpre o papel complementar: impedir que a tensão “alta demais” cause danos térmicos, dielétricos ou transitórios duradouros.
3. Principais causas de sobretensão
Algumas situações típicas que justificam o uso da função 59:
- Erro de TAP ou defeito em reguladores de tensão
- Reguladores automáticos (AVR) de geradores ou transformadores elevando demais a tensão.
- TAP incorreto em transformadores de distribuição, gerando níveis fora da faixa.
- Banco de capacitores mal coordenado
- Comutação de bancos de capacitores sem estudo adequado de ressonância.
- Sobretensão por ressonância série ou paralela em redes com alta componente capacitiva.
- Perda de carga repentina
- Em sistemas com geração local (geradores síncronos), perda súbita de carga pode fazer a tensão subir temporariamente.
- Defeitos no sistema de regulação de tensão
- Mal funcionamento de AVR em geradores.
- Problemas em transformadores com comutação sob carga (OLTC).
- Manobras inadequadas de rede
- Interligações ou ilhamentos sem análise prévia.
- Erros de operação que levam algum trecho do sistema a operar com tensão acima do projetado.
4. Onde a função 59 é aplicada?
A função 59 é amplamente usada em:
- Transformadores de potência
Para garantir que o secundário (e, em consequência, os equipamentos alimentados) não excedam a tensão nominal por tempo prolongado. - Geradores síncronos
Proteção contra falhas na regulação de tensão, excesso de excitação ou erros de operação. - Alimentadores de média tensão
Monitoramento de níveis de tensão de rede em subestações de distribuição e em alimentadores industriais. - Bancos de capacitores
Proteção contra sobretensões associadas à comutação, ressonâncias e desequilíbrios de fase. - Cargas sensíveis (indústrias com grande presença de eletrônica de potência)
Proteções coordenadas de sobretensão e subtensão para proteger inversores, retificadores e CLPs.
5. Medição: como o relé “enxerga” a sobretensão
A função 59 utiliza, em geral:
- Tensões de fase ou de linha medidas via transformadores de potencial (TPs / VTs);
- Em sistemas trifásicos:
- 59 fase–terra (tensão fase‑neutro)
- 59 de linha (tensão entre fases)
- Versões específicas como 59N (sobretensão de sequência zero, mas esta já é outra função, voltada a falhas à terra).
O relé monitora continuamente esses valores rms e os compara com níveis ajustados em pu ou em volts.
6. Tipos comuns de funções 59
Na prática, em relés numéricos modernos, a sobretensão pode ser desdobrada em:
- 59 – Sobretensão de fase
- Atua quando uma ou mais fases excedem o setpoint.
- Útil para proteção de cargas e transformadores.
- 59G / 59N – Sobretensão de sequência zero
- Associada a falhas à terra, usando tensão residual (3V0).
- Embora numericamente ligada à 59, é geralmente tratada como proteção de neutro/terra.
- 59P / 59Q – Sobretensão de sequência positiva/negativa
- Usadas em cenários específicos, como proteção de geradores.
Para um artigo introdutório, o foco é a 59 básica (sobretensão de fase / barra).
7. Lógica básica de atuação
De forma simplificada, a função 59 segue a lógica:
- Mede a tensão (fase ou linha) em tempo real.
- Compara com o ajuste .
- Se , inicia a contagem de tempo.
- Se a condição persistir por tempo maior que o retardo ajustado , emite comando de trip (ou alarme, conforme filosofia).
Essa atuação pode ser:
- Instantânea (quase sem tempo) para sobretensões muito altas;
- Temporizada (curvas definidas, como tempo definido – DT) para sobretensões moderadas e prolongadas.
8. Critérios práticos de ajuste
Os valores exatos dependem da filosofia de proteção de cada empresa, mas, em geral:
- Nível de pickup
- Ajustes típicos entre 1,05 pu e 1,20 pu da tensão nominal, dependendo da sensibilidade desejada e da variação normal permitida.
- Em sistemas onde a tensão opera naturalmente um pouco acima da nominal, o ajuste precisa considerar essa “faixa de operação normal”.
- Tempo de atuação
- Sobretensões leves (ex.: 1,05–1,10 pu): atrasos maiores (segundos), evitando disparos por pequenas oscilações.
- Sobretensões severas (ex.: > 1,15–1,20 pu): tempos menores (centenas de ms a poucos segundos) para proteger a isolação e os equipamentos.
- Coordenação com outros dispositivos
- A função 59 deve ser coordenada com:
- Proteções de reguladores de tensão;
- Lógicas de bancos de capacitores;
- Proteções de subtensão (27) para evitar conflito de zonas mortas de atuação.
- A função 59 deve ser coordenada com:
9. Exemplos de aplicações típicas
a) Transformador de potência em subestação industrial
- Tensão nominal: 13,8 kV
- Variação esperada de operação: 0,95 a 1,05 pu
- Ajustes possíveis:
- 59 nível 1 (alarme): 1,07 pu, tempo 5 s
- 59 nível 2 (trip): 1,12 pu, tempo 1 s
Assim, pequenos picos de tensão geram alarme, mas só sobretensões mais relevantes e persistentes levam ao desligamento do equipamento.
b) Banco de capacitores de correção de fator de potência
- Tensão nominal do banco: 13,8 kV
- Ajuste:
- 59 (trip): ~1,10 pu com tempo curto (0,5–1 s)
Objetivo: evitar que ressonâncias ou manobras causem sobretensões prolongadas no banco, que é particularmente sensível a excesso de tensão.
10. Cuidados e armadilhas comuns
Alguns pontos que frequentemente aparecem em casos reais:
- Ajuste alto demais
A proteção nunca atua, e a planta “acostuma” a operar com tensão cronicamente elevada, acelerando o envelhecimento dos equipamentos. - Ajuste baixo demais / sem coordenação
A função 59 começa a atuar por variações normais da rede, gerando desarmes desnecessários e indisponibilidade do sistema. - Ignorar transitórios de manobra
Em algumas instalações, picos rápidos de tensão (milissegundos) podem ser vistos pelos TPs/relés. É preciso dimensionar o tempo de retardo para não confundir transitórios rápidos com sobretensão sustentada. - Falta de integração com supervisão
A proteção atua, mas não há registro claro de oscilografias, eventos ou alarmes, dificultando a análise de causa raiz.
11. Integração com outras funções de proteção
A função 59 normalmente faz parte de um conjunto coordenado de proteções:
- 27 (subtensão) – proteção complementar em baixa tensão;
- 50/51 (sobrecorrente instantânea/temporizada);
- 49 (proteção térmica de transformadores ou motores); eletrotech – Site técnico de engenharia elétrica focado em proteção, automação e sistemas de potência, com artigos práticos sobre funções ANSI, ajustes de relés e aplicações em subestações e instalações industriais.
- 81O/81U (proteção de sobrefrequência/subfrequência);
- 59N (sobretensão de sequência zero) para faltas à terra.
O objetivo é ter um sistema de proteção coerente, onde cada função atua em seu cenário específico, com sobreposição mínima e boa seletividade.
12. Conclusão
A função 59 (sobretensão) é indispensável em qualquer instalação que queira operar com confiabilidade e segurança.
Ela protege transformadores, geradores, bancos de capacitores e cargas sensíveis contra níveis de tensão acima do projetado, evitando:
- queima prematura de isolamentos,
- falhas de equipamentos eletrônicos,
- paradas não programadas e perdas de produção.