Última atualização: Fevereiro de 2026

Você já viu transformador “cansado” ou motor queimando repetidamente, mesmo “dentro da corrente nominal”?
Em muitos desses casos, o problema não é só elétrico: é térmico.

função 49 (ANSI) é a proteção responsável por vigiar a temperatura interna de equipamentos como transformadores, motores e geradores, atuando antes que o aquecimento leve o isolamento ao limite.
Neste artigo, vamos explorar como ela funciona, onde aplicar, como ajustar e quais erros evitar na prática.


O que é a Função 49 (ANSI)?

Na padronização ANSI, a função 49 representa a Proteção Térmica.
Ela é usada para proteger o equipamento contra sobreaquecimento, seja:

  • calculando a temperatura com base em corrente, tempo e modelo térmico, ou
  • monitorando a temperatura medida por sensores (RTDs, termistores, etc.).

Na prática, a função 49 é implementada, em geral, em relés de proteção digitais/microprocessados, que:

  • monitoram a carga ao longo do tempo,
  • “simulam” o aquecimento interno,
  • atuam com alarme ou desligamento quando a temperatura equivalente ultrapassa os limites definidos.

O objetivo é simples: preservar o isolamento e aumentar a vida útil do equipamento, reduzindo o risco de falhas catastróficas.


Por que a Proteção Térmica é Tão Importante?

Quando falamos de transformadores e motores, o maior inimigo de longo prazo é o calor.
Alguns efeitos diretos do sobreaquecimento:

  • Envelhecimento acelerado do isolamento (papel/óleo em transformadores, verniz em motores);
  • Perda de rigidez dielétrica, aumentando o risco de falha interna;
  • Formação de gases e borras em transformadores a óleo;
  • Redução drástica da vida útil: operar acima da temperatura de projeto de forma recorrente pode cortar a vida útil em mais da metade.

Ou seja, mesmo que a corrente esteja “aceitável” por curtos períodos, o efeito cumulativo térmico pode estar derretendo, aos poucos, a saúde do seu equipamento.

É justamente aí que a função 49 faz diferença: ela enxerga a história térmica, não apenas o valor instantâneo da corrente.


Princípio de Funcionamento da Função 49

A função 49 pode ser implementada de duas maneiras principais:

1. Modelo térmico baseado em corrente

Nesse modo, o relé:

  • mede continuamente a corrente do equipamento;
  • utiliza um modelo matemático de aquecimento e resfriamento (modelo térmico);
  • calcula uma temperatura equivalente, mesmo sem sensor físico de temperatura.

A lógica é:

  • quanto maior a corrente, maior a potência dissipada (perdas) e, portanto, maior o aquecimento;
  • ao longo do tempo, o equipamento não esquenta e esfria instantaneamente – há uma constante de tempo térmica;
  • o relé considera tanto o período de sobrecarga quanto o tempo de resfriamento após a redução da carga.

Se a temperatura calculada:

  • ultrapassa um primeiro limite → gera alarme térmico;
  • ultrapassa um limite superior → comanda desligamento (trip).

Esse modelo permite que o equipamento suporte sobrecargas breves controladas, mas bloqueia sobrecargas prolongadas que levariam a um aquecimento perigoso.


2. Medição direta de temperatura (sensores)

Outra forma de implementar a função 49 é usar sensores de temperatura, como:

  • RTDs PT100 nos enrolamentos de transformadores e motores;
  • termistores (PTC/NTC) inseridos no estator de motores;
  • sensores instalados no óleo superior de transformadores ou em pontos críticos.

O relé:

  • lê a temperatura medida,
  • aplica os limites de alarme e desligamento,
  • registra históricos e tende a ser integrado ao sistema de supervisão (SCADA).

Em muitos projetos, combina-se:

  • modelo térmico + sensores físicos, aumentando a confiabilidade do monitoramento.

Função 49 em Transformadores

Nos transformadores de potência e de distribuição em subestações, a proteção térmica é essencial para:

  • proteger o isolamento sólido (papel) e o óleo isolante;
  • evitar envelhecimento precoce e falhas internas de alto impacto;
  • permitir operações com sobrecarga controlada em condições especiais (ponta, emergência).

A função 49, aplicada a transformadores, geralmente:

  • considera corrente em regime permanente e sobrecargas;
  • estima a temperatura de enrolamento ou do óleo;
  • utiliza dois níveis típicos:
    • Alarme térmico: operador é avisado para aliviar carga, acionar ventilação, etc.;
    • Desligamento térmico: o trafo é desligado para evitar danos irreversíveis.

Integração com outros dispositivos térmicos do transformador

Nos transformadores a óleo, a função 49 convive com outros recursos de proteção térmica:

  • Relé de temperatura do óleo e do enrolamento
    • Medem diretamente a temperatura;
    • Emitem alarme e comando de ventiladores (em ONAN/ONAF);
    • Atuam para desligamento em casos críticos.
  • Relé Buchholz (em transformadores com conservador)
    • Não é estritamente térmico, mas detecta gases formados por aquecimento anormal ou falhas internas;
    • Atua com alarme em falhas incipientes e trip em falhas graves.
  • Ventilação forçada / resfriamento auxiliar
    • Bancos de ventiladores ou bombas de óleo acionados por temperatura;
    • A função 49 pode ser coordenada com esses sistemas para gerenciar carga e temperatura de forma mais inteligente.

O conjunto de proteções, bem ajustado, evita que o transformador trabalhe de forma crônica em temperaturas acima do especificado pelo fabricante.


Função 49 em Motores Elétricos

Nos motores de média e alta potência, as condições de operação são variáveis:

  • partidas frequentes,
  • partida pesada,
  • rotor bloqueado,
  • variação de carga mecânica.

Tudo isso gera sobretemperatura, mesmo com corrente aparentemente “normal” ao longo do tempo.

A função 49, aplicada a motores, protege o isolamento do estator contra:

  • sobrecarga prolongada,
  • ventilação insuficiente (por exemplo, motores com ventilação própria operando abaixo da rotação nominal),
  • situações de rotor travado ou partidas muito longas.

Frequentemente, são usados em conjunto:

  • modelo térmico (via corrente) → protege em casos de sobrecarga;
  • termistores PTC/RTDs no estator → monitoram diretamente a temperatura dos enrolamentos.

Quando os limites são atingidos, a função 49 pode:

  • emitir alarme para o sistema de operação;
  • comandar desligamento do motor, evitando a queima do enrolamento.

Ajustes Típicos da Função 49

Um bom ajuste da função 49 depende de dados corretos do equipamento. Alguns pontos importantes:

Dados de entrada

  • Corrente nominal do transformador ou motor;
  • Potência e regime de operação (contínuo, intermitente, serviço pesado, etc.);
  • Classe térmica do isolamento (por exemplo, classes A, B, F, H);
  • Informações do fabricante sobre limites de temperatura e sobrecarga admissível.

Parâmetros da função 49

Embora a nomenclatura varie entre fabricantes, em geral você terá:

  • Constante de tempo de aquecimento: quão rápido a “temperatura calculada” sobe com a sobrecarga;
  • Constante de tempo de resfriamento: quão rápido a “temperatura calculada” desce quando a carga diminui;
  • Limite de alarme: porcentagem da temperatura máxima ou valor absoluto (°C);
  • Limite de desligamento (trip): valor crítico que não pode ser ultrapassado com segurança.

Boas práticas de ajuste

  • Utilizar dados oficiais do fabricante sempre que possível;
  • Considerar o perfil real de operação (picos diários, sazonalidade, partidas) e não só o “mundo ideal”;
  • Realizar testes de comissionamento:
    • simular o aquecimento (quando o relé permite),
    • verificar atuação de alarmes e disparos,
    • testar a lógica de intertravamentos.

Um ajuste mal feito pode desarmar o sistema sem necessidade (falsos trips) ou, pior, não atuar quando realmente deveria.


Vantagens da Função 49 em um Sistema Elétrico Moderno

Quando bem aplicada, a função 49 traz uma série de benefícios:

  • Aumenta a confiabilidade de transformadores e motores;
  • Reduz paradas não programadas, ao detectar situação térmica crítica de forma antecipada;
  • Prolonga a vida útil do isolamento, evitando operação contínua em alta temperatura;
  • Permite sobrecarga controlada em situações de emergência, dentro dos limites térmicos admissíveis;
  • Facilita o monitoramento e manutenção preditiva, graças ao registro de históricos térmicos em relés e supervisórios.

Em um contexto de indústria 4.0 e gestão de ativos, a proteção térmica deixa de ser apenas um “disparo de emergência” e passa a ser uma fonte de dados valiosa sobre a saúde do equipamento.


Erros Comuns no Uso da Proteção Térmica (Função 49)

Alguns problemas aparecem com frequência em campo:

  • Deixar parâmetros em default de fábrica, sem adaptação às características reais do equipamento;
  • Ignorar alarmes térmicos recorrentes, tratando-os como “incômodo de operação” em vez de sintoma de problema;
  • Subdimensionar ventilação ou refrigeração, e atribuir a culpa só ao relé;
  • Desativar a função 49 porque o equipamento “está desarmando demais”, em vez de diagnosticar a causa real (sobrecarga, ambiente quente, sujeira, entupimento de radiadores, etc.);
  • Não integrar a função 49 ao sistema de supervisão – perdendo assim histórico e tendência da temperatura ao longo do tempo.

Conclusão: Proteção Térmica Não é Luxo, é Necessidade

função 49 (proteção térmica) é um dos pilares da proteção moderna de transformadores, motores e geradores.
Ela enxerga o que a corrente sozinha não mostra: o efeito acumulado do calor ao longo do tempo.

Ao combinar modelo térmico bem ajustadosensores adequados e boas práticas de operação, você:

  • protege seu investimento em equipamentos caros,
  • reduz paradas inesperadas,
  • e aumenta significativamente a vida útil da sua instalação elétrica.

Quer Aplicar ou Revisar a Função 49 na Sua Instalação?

Se você está:

  • projetando uma nova subestação ou sala de motores,
  • revisando ajustes de relés de proteção,
  • enfrentando disparos térmicos recorrentes ou transformadores/motores “sofrendo” com aquecimento,

vale a pena olhar com calma para a função 49 e a estratégia de proteção térmica como um todo.