A função 86 é tradicionalmente associada a um “lockout” ou bloqueio de religamento em sistemas de proteção. Em termos práticos, ela atua como um “intertravamento elétrico” que impede que um disjuntor volte a fechar automaticamente após determinadas condições de falha, preservando a segurança do sistema, dos equipamentos e das pessoas.

1. O que é a Função 86?

Pela convenção ANSI/IEEE de numeração de funções, a Função 86 – Lockout é um dispositivo de bloqueio que:

  • recebe sinais de uma ou mais funções de proteção (por exemplo, 50/51, 87, 49, 50N/51N, 27/59, etc.);
  • quando acionada, comanda:
    • a abertura do(s) disjuntor(es) associado(s);
    • bloqueio de qualquer tentativa de religamento (manual, local, remoto ou automático);
  • permanece em estado de bloqueio até que seja resetada conscientemente por um operador (mecânico ou eletricamente, dependendo da filosofia do projeto).

Em outras palavras, a 86 eleva o nível de severidade da resposta do sistema de proteção: não se trata apenas de abrir o disjuntor, mas de impor um estado seguro e “travado” até que haja uma intervenção humana.


2. Por que a 86 é necessária? Contexto de aplicação

Nem toda atuação de proteção deve levar a um bloqueio de religamento. Em muitas situações, o religamento automático é desejável (linhas aéreas com faltas transitórias, por exemplo). Porém, há cenários em que religar sem uma avaliação prévia é inaceitável:

  • Falhas internas graves em equipamentos:
    • falta interna em transformador de potência (função 87T);
    • falha interna em disjuntor (mecanismo, câmara de interrupção, contatos principais);
    • curto-circuito interno em barramento (87B).
  • Condições de risco para integridade mecânica/térmica:
    • sobrecarga térmica prolongada (49) com risco de dano ao isolamento;
    • falha de isolação em cabos ou barramentos, detectada por funções sensíveis.
  • Falhas que podem agravar danos se houver nova energização:
    • presença de arco interno em painéis metálicos;
    • curto sólido e permanente em trechos de rede com risco de incêndio.

Nesses casos, a filosofia é clara:

“Uma vez que um evento crítico foi detectado, o sistema deve permanecer desenergizado e bloqueado até análise.”

E é exatamente aí que entra a Função 86.


3. Princípio de funcionamento da Função 86

Do ponto de vista lógico, a função 86 pode ser vista como um latch (biestável):

  1. Em condições normais, a 86 está “não acionada” (não bloqueia religamento).
  2. Ao receber um comando de disparo de uma ou mais funções de proteção críticas:
    • a 86 “arma” o bloqueio (entra em estado de atuação);
    • comanda a abertura do(s) disjuntor(es) envolvidos;
    • inibe:
      • religamento automático (recloser, 79, se existir);
      • comandos de fechamento local/remoto, dependendo da lógica implementada.
  3. O estado de bloqueio permanece até que alguém execute o reset da 86:
    • reset mecânico (em relés lockout eletromecânicos);
    • reset elétrico (em lógica de relé digital), geralmente exigindo condições seguras.

Em relés modernos, a 86 costuma ser implementada como uma lógica interna de lockout, mas o princípio permanece o mesmo: um estado de memória que impede nova energização até liberação consciente.


4. Implementações típicas: do relé lockout físico ao relé digital

Historicamente, a função 86 era implementada com:

  • Relés lockout eletromecânicos:
    • dispositivos com bobina(s) de atuação;
    • múltiplos contatos (NA/NF) para intertravamento;
    • mecanismo mecânico de trava que só libera após reset manual (botão, chave, alavanca).

Em sistemas modernos:

  • Relés digitais de proteção:
    • a função 86 pode ser configurada como uma lógica programável:
    • entrada: sinais de trip de funções críticas (87, 50BF, 49, etc.);
    • saída: comando de trip para disjuntor + bloqueio de sinais de fechamento;
    • o “reset” pode ser:
    • local (via HMI, botão do painel);
    • remoto (via sistema supervisório), dependendo da filosofia de segurança da planta.

É comum que, mesmo em sistemas com relés digitais, algumas instalações mantenham um lockout físico 86 para:

  • garantir um nível adicional de segurança;
  • fornecer indicação mecânica clara de bloqueio;
  • permitir intertravamentos independentes de firmware/parametrização.

5. Integração da 86 com outras funções de proteção

A 86 raramente atua sozinha. Ela geralmente é alimentada por outras funções de proteção consideradas “críticas”. Exemplos comuns:

  • 87 – Proteção diferencial (transformadores, geradores, barramentos):
    • atuação do 87 → comanda a 86 → abre disjuntor + bloqueia religamento.
  • 50BF – Falha de disjuntor:
    • caso o disjuntor não abra quando mandado → a função 50BF atua;
    • a 50BF pode acionar a 86 para:
    • abrir disjuntores a montante;
    • bloquear tentativas de operação do disjuntor defeituoso.
  • 49 – Sobrecarga térmica severa:
    • em certos projetos, uma condição extrema de sobreaquecimento (além de um limiar crítico) pode acionar a 86 para impedir nova energização do equipamento até inspeção.
  • Proteções de arco interno:
    • atuam rapidamente para abrir o disjuntor e acionar a 86, evitando qualquer tentativa de nova energização antes da correção mecânica e limpeza.

Essa integração deve ser cuidadosamente documentada em diagramas lógicos e funcionais, garantindo que apenas eventos verdadeiramente críticos acionem o lockout.


6. Aplicações típicas da Função 86 em subestações e sistemas industriais

A 86 pode ser encontrada em diversos níveis da instalação:

  • Em painéis de média tensão:
    • associada à proteção de alimentadores, transformadores e barramentos;
    • comanda intertravamentos entre seccionadores e disjuntores.
  • Em subestações de alta/média tensão:
    • associada à proteção de transformadores de potência (87T, 49, 50/51 com lógicas específicas);
    • usada para “travar” a energização após falhas internas.
  • Em sistemas industriais críticos:
    • plantas petroquímicas, siderúrgicas, mineração, papel e celulose;
    • integração com sistemas de segurança funcional (SIS) e shutdowns de processo.

A filosofia é sempre a mesma: quando o risco é grande demais para admitir um religamento automático, a 86 entra em cena.


7. Erros comuns e más práticas envolvendo a Função 86

Apesar de parecer conceitualmente simples, a implementação equivocada da 86 pode gerar riscos sérios. Alguns pontos de atenção:

  1. Acionar a 86 para qualquer atuação de proteção
    • Excesso de conservadorismo pode:
      • reduzir a disponibilidade do sistema;
      • causar paradas desnecessárias;
      • induzir a desativação indevida da lógica por “operador irritado”.
    • A 86 deve ser reservada para eventos realmente críticos.
  2. Lógica de reset mal definida
    • Permitir reset remoto sem critérios de segurança claros pode ser perigoso.
    • Em muitos casos, a boa prática é:
      • exigir inspeção local;
      • reset apenas no painel, por pessoal autorizado.
  3. Falta de documentação
    • Não registrar claramente:
      • quais funções de proteção alimentam a 86;
      • quais disjuntores são bloqueados;
      • quais intertravamentos estão associados.
    • Isso dificulta a manutenção, testes e análise de eventos.
  4. Ausência de testes periódicos
    • Assim como qualquer função de proteção, a 86 deve ser:
      • testada em comissionamento;
      • verificada periodicamente (testes de lógica, continuidade dos circuitos, atuação e reset).

8. Exemplo prático: 86 associada a transformador de potência

Considere um transformador de 13,8 kV / 0,48 kV alimentando um painel de baixa tensão crítico em uma planta industrial. A filosofia de proteção pode ser:

  • Funções principais:
    • 87T – diferencial do transformador;
    • 50/51 – sobrecorrente no lado de média;
    • 49 – sobrecarga térmica;
    • 50BF – falha de disjuntor.
  • Filosofia para 86:
    • Atuam sobre a 86:
    • 87T;
    • 50BF;
    • condição extrema de 49 (por exemplo, temperatura acima de um limiar “de dano”).
    • Ao atuar, a 86:
    • abre o disjuntor de média tensão;
    • bloqueia qualquer tentativa de religamento local/remoto;
    • gera alarme inequívoco (painel + supervisório).
  • Reset:
    • Apenas após:
    • inspeção do transformador;
    • verificação do disjuntor;
    • análise do evento (registro do relé).
    • Reset feito localmente, por pessoal autorizado.

Esse exemplo ilustra o princípio central:

Quanto maior o risco de dano irreversível ou de acidente pessoal, maior a justificativa para incluir a Função 86 na filosofia de proteção.


9. Conclusão

Função 86 – Bloqueio de Religamento (Lockout) é uma peça-chave na filosofia de proteção de sistemas elétricos de potência e instalações industriais críticas. Ela não substitui outras funções de proteção (50/51, 87, 49, etc.), mas atua como um “guardião” de segurança, garantindo que, após determinados eventos graves, o sistema permaneça desenergizado até uma intervenção humana qualificada.

Projetar corretamente a lógica da 86 – escolhendo quais eventos devem acioná-la, como ela interage com disjuntores e sistemas de religamento, e como é feito o reset – é fundamental para equilibrar segurança, confiabilidade e disponibilidade da instalação.