1. O que é a função 81?
A função 81 é a proteção de frequência definida pelo padrão ANSI/IEEE.
Ela monitora continuamente a frequência elétrica do sistema e atua quando essa frequência sai da faixa aceitável – seja:
- para baixo → 81U (subfrequência, U = Under)
- para cima → 81O (sobrefrequência, O = Over)
Em termos simples:
Se a frequência ficar por tempo suficiente abaixo ou acima da banda ajustada, o relé de função 81 dispara (desliga carga, geração ou sinaliza) para proteger equipamentos e manter a integridade do sistema.
2. Por que a proteção de frequência é importante?
Em sistemas de potência, a frequência é o “termômetro” do equilíbrio entre geração e carga:
- Se carga > geração, a frequência cai (subfrequência).
- Se geração > carga, a frequência sobe (sobrefrequência).
Frequências fora da faixa nominal (50 ou 60 Hz) podem causar:
- Esforços mecânicos e elétricos em geradores e turbinas;
- Aquecimento adicional em motores e transformadores;
- Descompasso com cargas sensíveis (eletrônica de potência, UPS, inversores, fornos, etc.);
- Risco de colapso de sistema (apagões) se não houver controle e alívio de carga coordenado.
Assim como a função 27 (subtensão) cuida dos níveis de tensão, a função 81 garante que o sistema opere na “frequência certa”, protegendo estabilidade e equipamentos.
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3. Tipos de função 81: 81U e 81O
Na prática, separam-se duas funções:
- 81U – Subfrequência
Atua quando a frequência cai abaixo do valor de ajuste.
É usada principalmente para:- Alívio de carga (load shedding);
- Proteção de geradores e turbinas;
- Proteção de processos industriais sensíveis.
- 81O – Sobrefrequência
Atua quando a frequência sobe acima do valor de ajuste.
Típica em:- Sistemas insulares (geração local);
- Proteção de geradores com excesso de geração em relação à carga;
- Situações de rejeição repentina de carga.
Em relés numéricos, é comum ter vários estágios de 81U e 81O, com diferentes níveis e tempos (por exemplo: 81U1, 81U2, 81U3), para dar respostas graduais.
4. Onde a função 81 é usada?
Algumas aplicações práticas:
- Sistemas industriais com geração própria
Plantas com geradores a diesel, gás, turbina a vapor, hidro, etc. - Subestações de concessionárias e grandes consumidores
Para esquemas automáticos de alívio de carga por subfrequência. - Sistemas isolados ou micro redes (microgrids)
Onde o equilíbrio geração–carga é mais “sensível”. - Proteção de geradores conectados à rede
Para evitar operação fora da faixa de velocidade/frequência permitida pelo fabricante ou pelo operador do sistema (ONS, ISO, etc.).
5. Como o relé mede a frequência?
O relé utiliza as tensões do sistema (via TPs/VTs) e aplica algoritmos para estimar a frequência:
- Zero-crossing (cruzamento por zero);
- FFT (transformada rápida de Fourier);
- Técnicas digitais de tracking de fase (PLL).
Depois, compara o valor de frequência medido com os limiares ajustados para sub- e sobrefrequência.
6. Lógica de atuação da função 81
De forma simplificada:
- Mede-se a frequência instantânea ou média .
- Compara-se com os valores de pickup:
- Para 81U: se
- Para 81O: se
- Se a condição anormal persiste por mais que o tempo de retardo ajustado, o relé:
- Gera alarme;
- Desliga cargas (load shedding);
- Desconecta geradores;
- Pode acionar lógicas internas (por ex., “desligar não-essencial”).
Em relés modernos, muitas vezes há:
- Múltiplos estágios (vários pick-ups);
- Diferentes tempos para cada estágio;
- Possibilidade de intertravamento com outras funções (por exemplo, 81U ligada a uma lógica de corte de carga por prioridade).
7. Critérios práticos de ajuste (81U e 81O)
Os valores exatos dependem da filosofia da concessionária, do ONS ou da engenharia da planta, mas existem faixas típicas.
7.1. Subfrequência – 81U
Para sistemas a 60 Hz (ajuste típico, ilustrativo):
- 81U1 – Estágio de alarme / corte leve
- Pickup: 59,4–59,5 Hz (≈ 0,99–0,991 pu)
- Tempo: 10–30 s
- Ação: alarme ou corte de cargas não essenciais.
- 81U2 – Estágio de corte de carga mais severo
- Pickup: 58,5–59,0 Hz
- Tempo: 5–10 s
- Ação: corte de cargas importantes, porém ainda “desligáveis”.
- 81U3 – Estágio de emergência
- Pickup: 57,0–58,0 Hz
- Tempo: 0,5–5 s
- Ação: corte de grandes blocos de carga para salvar o sistema e evitar desligamento total.
Em sistemas a 50 Hz, os valores são proporcionais (por exemplo, 49,5 Hz, 49 Hz, 48 Hz, etc.).
7.2. Sobrefrequência – 81O
Para sistemas a 60 Hz:
- 81O1 – Estágio de alarme
- Pickup: 60,5–60,7 Hz
- Tempo: 10–30 s
- Ação: alarme, possível redução de geração ou corte de geração excedente.
- 81O2 – Estágio de proteção severa
- Pickup: 61,0–61,5 Hz
- Tempo: 1–10 s
- Ação: desligar unidades geradoras ou reduzir rapidamente a potência.
Novamente, para 50 Hz, valores típicos podem ser 50,5 Hz e 51 Hz como primeiros estágios.
8. Exemplo de aplicação: alívio automático de carga (load shedding)
Um dos usos mais críticos de 81U é o esquema de alívio de carga por subfrequência.
Exemplo simplificado em um sistema industrial de 60 Hz com geração própria:
- Nível 1 – f < 59,4 Hz por 20 s
- Desliga 10% da carga (cargas menos críticas).
- Nível 2 – f < 59,0 Hz por 10 s
- Desliga mais 15% da carga (cargas intermediárias).
- Nível 3 – f < 58,5 Hz por 5 s
- Desliga cargas pesadas porém ainda não vitais.
- Nível 4 – f < 58,0 Hz por 1 s
- Desliga tudo que for possível, preservando só cargas de segurança.
Com isso, o sistema tenta restabelecer o equilíbrio geração–carga antes que a frequência caia a níveis que forcem o desligamento automático dos geradores.
9. Cuidados e armadilhas comuns
- Ajuste muito “apertado”
Se os limites de 81U/81O forem muito próximos da frequência nominal, o relé pode atuar por oscilações naturais da rede, gerando desligamentos desnecessários. - Ajuste muito “folgado”
Permite que o sistema opere com frequência fora de faixa por muito tempo, causando:- Esforços mecânicos em turbinas;
- Risco de perda de estabilidade;
- Danos a cargas sensíveis.
- Falta de coordenação com o operador do sistema
Em instalações conectadas à rede pública, os ajustes devem respeitar normas e requisitos do operador do sistema (ONS, distribuidora, ISO, etc.). - Não considerar a inércia do sistema
Sistemas com baixa inércia (muita geração a diesel/solar + pouca massa girante) respondem mais rápido a desequilíbrios, exigindo ajustes mais “ágeis” da função 81.
10. Integração com outras funções de proteção
A função 81 trabalha em conjunto com:
- 27/59 – Subtensão / Sobretensão
Garantem níveis de tensão adequados, enquanto 81 cuida da frequência. eletrotech – Site técnico de engenharia elétrica focado em proteção, automação e sistemas de potência, com artigos práticos sobre funções ANSI, ajustes de relés e aplicações em subestações e instalações industriais. - 50/51 – Sobrecorrente
Tratam falhas de curto-circuito; 81 cuida de desequilíbrios geração–carga sem, necessariamente, haver curto. - 32 / 40 / 46 em geradores
Proteções de potência, perda de campo, desequilíbrio de corrente, etc., que se complementam à 81. - Lógicas de automação
Esquemas automáticos de recomposição, corte de carga, start/stop de grupos geradores, etc.
11. Conclusão
A função 81 (subfrequência e sobrefrequência) é fundamental para:
- Proteger geradores, turbinas e cargas sensíveis;
- Evitar operação prolongada com frequência fora da faixa;
- Implementar esquemas de alívio automático de carga que podem ser a diferença entre uma pequena oscilação e um apagão total.